O Cheiro do Natal e as Notas da Vida: Uma Reflexão sobre Espera e Fé
Há algum tempo, esperávamos o Natal com uma ansiedade quase palpável. Era uma época mágica, mas que trazia seus percalços: as temidas provas finais. Naquela época, havia um trato clássico: "se passar de ano, ganha o presente que escolher". O meu desejo era uma Caloi 10, o sonho de consumo de dez entre dez garotos daquela geração.
Mas, naquele ano, eu não passei. Repeti de ano, troquei de escola e não ganhei o presente.
A frustração de não conseguir algo é um sentimento amargo; dói até de lembrar. Dá vontade de parar de escrever e deixar para lá. Mas o que mudou de lá para cá? Naquele mesmo ano, decidi que era hora de mudar. Comecei a trabalhar em uma empresa muito boa como office-boy. Fui abençoado com um bom salário, correndo de um lado para o outro pagando contas.
Com meu próprio esforço, comprei a tal Caloi 10 — marrom metálica, zero km. Saí da loja pedalando minha "magrela". Sonho realizado! O detalhe é que agora eu estudava à noite, uma rotina exaustiva que eu mal percebia o quanto me consumia.
Apesar das lutas, o Natal era sagrado. Meu querido pai sempre reservava um momento para nós: saíamos para comprar uma árvore de verdade, viva. Ele a colocava na sala e a enfeitávamos juntos. O mais interessante é que, embora a árvore mudasse a cada ano, uma coisa era constante: o cheiro de Natal. Quem nunca sentiu o aroma de um pinheiro real dentro de casa, talvez não conheça uma das essências mais puras dessa data.
A tradição continua, mas hoje a minha árvore não tem mais aquele cheiro. Meu pai não está mais conosco e, em especial este ano, meu amado filho, nora e neta também não estarão presentes fisicamente em nossa casa. Pedi a Deus que eles pudessem vir, pedi condições para as passagens, mas, até agora, sigo aguardando. Às vezes me sinto como o menino da bicicleta: talvez minhas "notas" este ano não tenham sido tão boas e eu não receba o presente que pedi.
No entanto, eu compreendo que tudo tem propósito. É curioso pensar que, quando Jesus nasceu, não houve luxo. Havia uma manjedoura, Maria, José, os animais e, depois, os magos. O profeta Isaías, 700 anos antes, já profetizava:
“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu, e o principado estará sobre os seus ombros, e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.” (Isaías 9:6)
Sabemos que Jesus não nasceu exatamente no dia 25 de dezembro, mas isso pouco importa. O que importa é que Ele nasce todos os dias em nossos corações. Com árvore ou sem árvore, com presentes ou sem eles, com a casa cheia ou em silêncio, o sentido permanece: Deus enviou Seu Filho para que todo aquele que Nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.
Com bicicleta ou sem bicicleta, com a presença física da família ou na saudade da espera, nós celebramos o Natal. Porque o presente maior já nos foi dado.
Feliz Natal!

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